quarta-feira, 25 de março de 2026

GNOSTICISMO - Processão Divina no Apócrifo de João

 

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O Apócrifo de João (ou Livro Secreto de João) é um dos textos mais fundamentais do gnosticismo setiano, encontrado na biblioteca de Nag Hammadi. Ele descreve a Processão Divina como uma série de emanações que partem de uma unidade absoluta e inefável até a criação do mundo material.

1. O Monismo Absoluto: O Pai Invisível

A processão começa com o Espírito Invisível, também chamado de O Um ou O Pai, a Monoda.Ele é descrito por via negativa (teologia negativa): não é um deus, mas algo superior a deus; é inefável, imensurável e eterno. Ele é a fonte de toda a luz e vida, mas permanece transcendente a tudo o que dele emana.

2. A Primeira Emanação: Barbelo

O Pai, ao contemplar a si mesmo na "água da luz" que o rodeia, gera o seu primeiro pensamento (Ennoia). Este pensamento torna-se uma entidade distinta chamada Barbelo.

Títulosde Barbelo:

Mãe-Pai (Metropator): Indica sua natureza andrógina e autossuficiente, contendo em si tanto o princípio gerador masculino quanto o receptivo feminino.

Primeiro Homem (Protanthropos): No contexto gnóstico, o "Homem" refere-se a uma estrutura espiritual arquetípica e divina, não ao ser humano biológico. Barbelo é a primeira manifestação dessa forma perfeita.

Santo Espírito: Ela é a personificação do sopro divino e do pensamento ativo do Pai, atuando como a "Pronoia" (Providência) que dá origem a todas as outras emanações do Pleroma.


Dela emanam as cinco qualidades fundamentais (a Pentade): Prognosis (Pré-conhecimento), Incorruptibilidade, Vida Eterna, Verdade e a própria Pronoia.

3. O Filho: O Autógenes (Cristo)
Barbelo olha para o Pai e, com o seu consentimento, gera uma luz pura, o Autógenes (Aquele que gera a si mesmo), também identificado como o Cristo. Ele é o Filho divino que organiza o Pleroma (a plenitude divina).

4. Os Quatro Luminares e os Eons

Do Autógenes emanam quatro grandes luzes ou Luminares, que servem como moradas para diferentes seres e qualidades:
Luminar
Eons/Qualidades Associadas
Habitantes
Armozel
Graça, Verdade, Forma
O Homem Perfeito (Adamus)
Oriel
Concepção, Percepção, Memória
Seth (o filho de Adão)
Daveithai
Entendimento, Amor, Ideia
A descendência de Seth
Eleleth
Perfeição, Paz, Sophia
As almas que ainda não se arrependeram

5. A Queda de Sophia e a Criação do Mundo Inferior
A processão sofre uma ruptura quando Sophia (Sabedoria), o último Eon de Eleleth, deseja produzir uma imagem de si mesma sem o consentimento do Pai e sem o seu par masculino.

O resultado é uma criatura imperfeita e monstruosa: Yaldabaoth (o Demiurgo).

Yaldabaoth rouba parte do poder de sua mãe e cria o mundo material e os Arcontes (governantes).

Ele se autoproclama o único deus ("Eu sou um deus ciumento"), ignorando a existência do Pleroma acima dele.


 Yaldabaoth, Diferente do Deus supremo e benevolente das tradições abraâmicas, Yaldabaoth é retratado como uma entidade ignorante e arrogante, nascida de um erro cósmico. Ele é frequentemente identificado por nomes como Saklas ("o tolo") ou Samael ("o deus cego"), e sua aparência é descrita como tendo um rosto de leão e um corpo de serpente

Yaldabaoth, o Demiurgo, é o criador do mundo material e dos Arcontes, as entidades que governam este reino. Sua cegueira reside na sua convicção de ser o único Deus, proferindo a famosa frase: "Eu sou um Deus ciumento, e não há outro Deus além de mim", sem perceber a existência do Pleroma, o reino da plenitude divina acima dele . Este conceito subverte a ideia de um criador perfeito, introduzindo a noção de que o mundo material é, em sua essência, imperfeito e resultado de uma ignorância divina.

6. A Formação do Homem

O esquema da formação dos seres culmina na criação de Adão. Os Arcontes criam um corpo psíquico para Adão baseado na imagem do "Homem Perfeito" que viram refletida nas águas. No entanto, Adão só ganha vida quando Yaldabaoth, enganado pelos agentes do Pleroma, sopra nele o poder (pneuma) que havia roubado de Sophia.
Este esquema resume a complexa cosmogonia gnóstica onde a "Processão Divina" é um movimento de luz que, ao se afastar da fonte, acaba por se fragmentar na matéria, necessitando de um processo de redenção e retorno ao Um.

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