16. Havia, em seu tempo, muitos cristãos e também outros 54, sectários de uma seita derivada da antiga filosofia, adeptos de Adélfio e de Aquilino, que possuíam muitíssimos escritos de Alexandre o Líbio, de Filocomo, de Demóstato e de Lido, e que apresentavam apocalipses de Zoroastro, de Zostriano, de Nicoteu, de Alógenes, de Mesa e de outros tais55, que, estando eles mesmos enganados, a muitos enganavam, dizendo que Platão não alcançara o profundo da essência inteligível. Por isso Plotino mesmo não só fez muitas refutações a eles nas reuniões, mas também escreveu o tratado que intitulamos Contra os gnósticos56, deixando a nós a tarefa de criticar as doutrinas restantes.54 A respeito da presença de gnósticos no círculo de relações de Plotino, vejam-se Tardieu, 1992; Puech, 1%0; e também a prosopografia elaborada por Brisson (1982).
55 Por volta de 1945, foi descoberta uma bibliota:a gnóstica, escrita em capta, em Nag Hammadi, no Egito; entre os tratados encontrados, constam um Zostriano e um Alógenes, que sao provavelmente os mesmos citados por Porfírio; vejam-se as introduções Sieber ao Zostriano (VIIT, 1) e de Wire ao Alógenes (XI, 3), em The Nag Hammadi Library in Englísh, Leiden, 1977, p. 402 e 490, respectivamente.56 II . 9 [33].57 Em grego, basileús significa "rei".Arnélio chegou a escrever quarenta livros contra o livro de Zostriano. E eu, Porfírio, compus numerosas refutações ao de Zoroastro, demonstrando como esse livro é não apenas espúrio, mas também recente e forjado pelos fundadores da seita, para que se tenha a crença de que são do antigo Zoroastro as doutrinas que eles mesmos escolheram venerar. Plotino, Eneadas I, II e III; Porfirio, Vida de Plotino : introdução, tradução e notas - Jose Carlos Baracat Junior https://repositorio.unicamp.br/Acervo/Detalhe/374748
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II 9 (33) Neste tratado Porfírio resume os quatro tratados que Plotino escrevera originalmente acerca das hipóstases, que se definem por se contrapor aos gnósticos: o uno é de natureza simples e sempre a mesma, sendo dito o bem e nada se predicando dele. Não sendo de outro ou em outro, há necessidade nada haver acima dele. Este cria a inteligência que pensa primeiro, e esta cria a alma. Nada mais nem menos deve-se pôr no mundo inteligível. Esses princípios, para criação de numerosas naturezas inteligíveis, são sempre em atividade, nunca em potência, pois como são sempre nunca deixariam de ser em potência. Nada há intermediário além da mesma inteligência que é sempre a mesma, em repouso, jazendo em atividade. O movimento é para a alma, que cria pela inteligência a alma inteligente. Nunca haverá o que pensa e o que pensa que pensa, pois isso levaria a haver sempre outro, e nunca seria o mesmo. O pensamento contrário a isso seria ridículo, e levaria ao absurdo. A alma suprema conforma-se à inteligência pela contemplação, potência admirável, irradiando sua luz aos seres criados.
A crítica aos gnósticos quanto à origem do mal enfatiza que a natureza da alma é causadora, não as trevas ou escuridão; isso porque há necessidades precedentes e porque é exposta a vícios que a fazem presa de desejos. A alma que gera a matéria, por ela se corrompe (Enéada I 8 14), o que concorda com a teoria da procissão, isto é, há uma continuação desde o uno, a inteligência e a alma, até a matéria. Nenhuma doutrina que perverta o sentimento de virtude poderia levar ao sublime; essas virtudes que desprezam os valores transmitidos desde os antigos carecem de algo que seja aquilo mesmo que desprezaram, como fizeram os gnósticos e os seguidores de Epicuro. Pois, ao se anular o sentimento de moderação (φρόνησις) e o inato sentimento de justiça (δικαιοσύνη) dos costumes, anula-se também o acesso do homem ao mundo inteligível, o que o torna um ser pior: os que não participam da virtude não se movem em absoluto para as coisas divinas. E como está dito no final do capítulo quinze deste livro, nenhum discurso dos antigos deixou de exaltar a virtude para uma vida completa, orientando o homem não só a olhar para deus, mas ensinando também como se faz isso. Assim, a virtude que veio a ser na alma com moderação, projeta-se para um fim que indica deus.
1. Quando se nos mostra a natureza do bem simples e primeira – pois o todo não primeiro não é simples – nada tendo em si, senão uma certa unidade, é do que se diz uno a natureza ela mesma – pois ela não é outra coisa, e depois uma coisa, nem isso é outra coisa, e depois é o bem – quando dissermos o uno, e quando dissermos o bem, é preciso considerar ser a mesma natureza e uma só dizer não predicando nada dela, mas mostrando a nós mesmos, quanto possível. E assim é o primeiro, porque é o mais simples, e é o autossuficiente, porque não é de muitas partes; pois assim estará ligado a coisas que são dessas partes; e não está em outro, porque o todo em outro é também da parte de outro. Se então nem é da parte de outro, nem em outro, nem nenhuma síntese, necessidade é nada haver acima dele. Portanto não é preciso ir a diferentes princípios, mas tendo preestabelecido isto, em seguida inteligência depois dele, e o que pensa primeiro, em seguida alma com inteligência – pois esta é a disposição por natureza – nem é preciso pôr mais do que isso no que é inteligível, nem menos. Pois se for menos, ou alma e inteligência dirão ser o mesmo, ou inteligência e o primeiro; mas que são coisas diferentes entre si foi demonstrado de muitos modos. Restando examinar no presente, se mais do que essas três, haveria algumas naturezas paralelas a elas. Pois tendo sido dito que é assim o princípio de todas as coisas, ninguém encontraria qualquer princípio mais simples nem que esteja mais acima. E nem na verdade um em potência, e outro em atividade dirão; pois seria ridículo separar entre os que são em atividade e entre os imateriais o que é em potência e o que é em atividade, para criar naturezas numerosas. Mas nem entre aqueles além desses; nem imaginar alguma inteligência em alguma tranquilidade, e outra como em movimento. Pois que tranquilidade de inteligência e que ação de mover e avanço haveria, ou que inatividade e que trabalho do outro? Pois é assim que é inteligência sempre, como está em repouso, jazendo em atividade; e ação de movimento para a inteligência e acerca dela é trabalho da alma, e há uma razão desde a inteligência para a alma, que cria a alma inteligente, não havendo alguma outra natureza entre inteligência e alma.
Não há nem por isso criar numerosas as inteligências, se uma pensa, e outra pensa que pensa. Pois se uma coisa é o pensar entre elas, outra é o pensar que pensa, mas então há um só acesso não insensível dos feitos realizados na alma. Pois ridículo é sustentar isso sobre a verdadeira inteligência, mas totalmente será a mesma a que pensa e a que pensa que pensa. Se não, uma será a que pensa apenas, e outra que pensa que pensa, havendo outra, mas não sendo a mesma que pensou. Mas se disserem em pensamento, primeiro deverão afastar-se das muitas hipóstases; depois é preciso examinar se também os pensamentos têm espaço para tomar inteligência que apenas pensa, não acompanhando a si mesma em relação a que pensa; o que se acontecesse a nós mesmos que sempre estamos à frente dos impulsos e reflexões, mesmo se [os gnósticos] fossem comedidamente zelosos, teriam uma causa de [nossa] estupidez. E quando a inteligência, a verdadeira, pensar a si mesma nas reflexões, e não for de fora o inteligível de si, mas quando for ela mesma também o inteligível, necessariamente no pensar tem a si mesma e vê a si mesma; e vendo a si mesma não sendo estúpida, mas vê a si que pensa. Assim no primeiro pensar teria também o pensar que pensa, como sendo um só; e nem lá no pensamento há um duplo. E se também o que sempre pensa fosse aquilo que é, que espaço há ao pensamento que separa o pensar do pensar que pensa? E se também ao segundo pensamento alguém introduzisse um terceiro, o pensar que pensa sobre o segundo que diz: o que diz que pensa que pensa que pensa, ainda mais declarado seria o absurdo. E assim por que não ao infinito? E a razão, quando alguém a crie a partir da inteligência, depois disso ela vem a ser na alma, diferente da mesma razão, para que no intervalo de alma e inteligência esteja essa razão, privará a alma do pensar, se ela não a receber da inteligência, mas receberá a razão da parte da outra inteligência, do intervalo; e ela terá uma visagem de razão, mas não razão, e inteiramente não conhecerá inteligência nem absolutamente pensará.
2. Portanto, deve-se pôr que não é isso, nem há mais do que essas [hipóstases], nem reflexões excessivas nelas, que eles não aceitam, mas uma só inteligência que contém da mesma forma a si mesma, indeclinável em toda parte, que imita o pai quanto é possível a ela. Da nossa alma, uma parte é sempre para aquelas coisas, outra está para essas coisas, outra está no meio delas324; pois sendo natureza única em numerosas potências, umas vezes deixa-se levar toda com o melhor dela e do que é, outras vezes o pior dela sendo puxado para baixo puxa junto o meio; pois não era lícito puxar para baixo o todo dela. E essa impressão acontece-lhe porque não permaneceu no mais belo lugar, onde a alma tendo permanecido não é parte, nem nós somos ainda parte dela, e concedeu ao mesmo corpo todo que tivesse quanto é capaz de ter da parte dela, e permanece sem fadiga ela que administra não a partir de reflexão, nem corrigindo algo, mas conformando-se à contemplação ao que é antes dela como potência admirável. Pois tanto para essa está, quanto mais bela é e mais potente; e o que de lá obtém, dá ao que é com ela, e assim brilhante sempre brilha.
324 Alma intelectiva, sempre voltada aos inteligíveis, alma sensitivo-vegetativa, voltada aos sensíveis, e alma intermédia ou racional, que é do raciocínio discursivo.
3. Então ela, sempre brilhando e tendo ininterrupta luz, dá às coisas que a seguem, e estas sempre se mantêm e se saciam dessa luz e desfrutam do viver quanto podem; como se estas, em algum lugar um fogo jazendo no meio, se aquecessem o quanto possível. No entanto, o fogo é em medida; e quando potências, que não tendo tido sua medida [de fogo], não tenham sido anuladas desde as coisas que são, como é possível ser, em nada participando de si mesmas? Mas é necessário cada um dar algo de si também a um outro, ou o bem não será bem, ou a Inteligência não será inteligência, ou alma não será isso, se nenhuma relação tem a vida com o viver anterior, nem com o viver posterior, enquanto é o anterior325. Então é necessidade tudo ser em sequência um do outro e sempre, e as outras coisas geradas estão para o ser da parte de outras. Então não vieram a ser, mas vinham a ser e virão a ser quantas coisas se dizem geráveis; nem serão destruídas, a não ser quantas estão para essas [que são geráveis]; o que não está para o [que é gerável] não será destruído. E se alguém dissesse que isso está para a matéria, por que também a matéria [não será destruída]? E se disser que mesmo a matéria [se destruirá], que necessidade havia, diremos, de ela vir a ser? E se disserem que é necessário ela acompanhar, também agora havia necessidade [de ela vir a ser]. E se tivesse sido deixada isolada, não seria em toda parte, mas em algum lugar delimitado as coisas divinas serão, como estando isoladas por um muro326; e se isso não é possível, ela será iluminada.
325 O modo de vida (ζώη) anterior, ou primeiro, dá algo de si ao modo de vida que se segue a ele, e este ao terceiro; assim procedem as hipóstases, que têm essa dupla atividade: em si e no outro. Nisso mesmo está a diferença com os gnósticos, que defendem um criacionismo em que o criador, além de ‘agir por emanação’, não dá de si, nem ao que foi criado.
326 Raferência a Aristófanes, As Aves, 1576.
4. E se dizem que, quando perdeu as asas327, a alma criou, a do todo não sofre isso; e se eles disserem que é porque ela caiu, devem dizer a causa da queda. E quando caiu? Pois se é desde sempre, permanece segundo o discurso deles decaída; e se teve início, por que não antes?328 Nós dizemos que a alma criou, não com inclinação, mas antes sem inclinação. E se declinou, é claramente devido a ter esquecido das coisas de lá; e se esqueceu, como poderá ser demiurgo? Pois de onde criará ou a partir de quais das coisas de lá viu? E se estando lembrada delas cria, não declinou inteiramente, nem mesmo se as tem obscuramente. E não se inclina mais para lá, para que não obscuramente veja? Pois, por que não desejaria retornar, tendo qualquer memória? Pois o que calcularia acontecer a si mesma desde criar o cosmo? Pois ridículo é esse ‘para que fosse honrada’329, [sendo ridículo] também os objetos de veneração que reportam os daqui a partir dos que os criam. E depois se por reflexão criava, e não estava em sua natureza criar, e a potência, a que cria, não era nela, como teria criado este cosmo? E também quando o destruirá? Pois se mudou de pensamento, por que hesita330? E se é assim, não mudaria o pensamento já que agora está habituada, tendo-se tornado mais afeiçoada com o tempo. E se quanto às almas de cada um hesita, era já preciso não mais vir para a gênese de novo, tendo sido posta à prova na geração anterior dos males daqui; assim já renunciariam a vir331. Nem se deve conceder que este cosmo tenha vindo a ser mau, por haver nele muitas coisas difíceis; pois essa estimativa é maior do que o que se põe à volta deste cosmo, se consideram ser ele igual ao inteligível, mas não uma imagem deste332 . Ou que outra imagem haveria de ser mais bela do que esta? Pois que outro fogo haveria de ser melhor do que o fogo de lá, em relação ao fogo daqui333? Ou que outra terra além dessa haverá depois daquela de lá? E que esfera haveria de ser mais exata e mais venerável ou mais bem ordenada na trajetória, além da circunvolução de lá, do cosmo inteligível, em si mesmo? E que outro sol haveria de ser além daquele, antes deste que se vê?
327 Platão, Fedro 246c.
328 Vide Ireneu, Contra as heresias I 2, 1-4.
329 Em referência à doutrina de Valentino, apud Clemente, Stromata IV 90, 1.
330 Referência a Gênesis 6, 7.
331 Vide Ireneu, Contra as heresias I 7, 1.
332 Platão, Timeu 28c – 29b. Enéada III 8, 11.
333 Platão, Timeu 53e.
5. Mas eles, tendo corpo, como têm os homens, não desprezam desejo, aflições e impulsos, que é da capacidade em si mesmos, mas dizem ser possível alcançar o inteligível, e que não há no sol essência mais intacta do que essa capacidade, mais em ordem e que não é mais em mudança, e que não tem modo de pensar melhor do que o nosso, nós que nascemos há pouco, e que é por causa de tamanhos enganos que impedem de chegar à verdade; e nem digam que a alma deles é imortal e divina, mesmo a alma do homens mais débeis, e todo o céu e os astros de lá não estão em comunhão com a imortalidade, sendo provenientes do que é em muito mais belo e mais puro, vendo ali o que é ordenado, conveniente e bem disposto, eles reprovam sobretudo a desordem daqui acerca da terra; assim a alma imortal tendo tomado como melhor o pior lugar, cede o melhor, querendo-o para a alma mortal. E irracional é também a introdução para eles dessa outra alma, a qual compõem de elementos; pois como teria qualquer modo de vida a composição desde elementos? Pois a união deles cria ou calor ou frio ou algo misturável, ou seco ou úmido ou uma mistura deles. E como a continuidade desses quatro que veio a ser última é desde eles? E quando eles acrescentem a ela contradição, decisão e outras coisas inumeráveis, o que alguém
diria? Mas não honrando essa criação nem esta terra, dizem ter surgido para eles uma nova, para a qual daqui retornarão; e isso dizem ser a razão do cosmos. No entanto, por que é preciso surgir para eles ali em um paradigma de cosmos, que eles odeiam? E de onde é esse paradigma? Pois esse paradigma, segundo eles, é do que o criou já estando inclinado às coisas daqui. Se, então, no mesmo que criou há múltipla intenção de criar outro cosmo além do cosmo inteligível que tem, por que isso também era preciso? E se o criou antes do cosmo, para quê? Para que fossem guardadas as almas. Como, então? Não foram guardadas, assim tornou-se em vão. E se [criou] depois do cosmo, ao tomar a forma do cosmo, tendo eliminando a matéria, bastaria a prova para as almas que passaram por provas para ser guardadas. Se acham ter recebido nas almas a forma do cosmo, qual a novidade do discurso?
6. E quanto às outras hipóstases, o que é preciso dizer das que eles introduzem: situações limítrofes tanto em relação a resistentes, quanto em relação a mudanças de pensamentos? Pois se dizem que essas são impressões da alma, quando ela estiver em mudança de pensamento, e em relação a resistentes, quando ela contempla, como imagens das coisas que são, mas não mais as mesmas coisas que são, é por causa dos que falam de maneira nova para a sustentação da própria escolha; pois como os que não fazem uso da antiga língua grega, eles exploram esses termos, sabendo-os claramente dos gregos334, e modestamente dizendo subidas a partir da caverna335, as quais mais e mais levam brevemente a uma visão mais verdadeira. Pois inteiramente alguns desses termos estão para eles tomados de Platão, outros, quantos eles inovaram para propor uma própria filosofia, esses foram encontrados fora da verdade336. Depois tanto os juízos [finais] quanto os rios no Hades e as metencorporações são dali337. E sobre criar grande parte dos inteligíveis, o que é, o que pensa, o outro demiurgo e a alma, [tudo] está tomado do que foi lido no Timeu; pois ele diz338: “Então exatamente como inteligência contempla ideias que estão naquele que é vivente, o que cria pensou esse todo ter tantas ideias”. E os que não compreendem
tomaram uma inteligência que contém em si, em tranquilidade, tudo que é, e uma outra ao lado dessa, que contempla, e outra que pensa –e muitas vezes para eles no lugar da que pensa há alma demiúrgica – e segundo Platão creem ser esse o demiurgo, estando longe de saber quem é o demiurgo339. E falseiam inteiramente o modo da criação e muitas outras coisas dele e para o pior arrastam as opiniões do homem, como eles mesmos tendo a compreensão da natureza inteligível, e não aquele [Platão] e os outros homens bem-aventurados. E nomeando uma quantidade de inteligíveis, creem inventar o exato opinar com a própria quantidade, levando a natureza inteligível ao mais semelhante à perceptiva e inferior, sendo necessário aí buscar um número assim quanto possível pouco, e a esse atribuindo todas as coisas, depois do que é primeiro, afastado da quantidade, sendo esse primeiro de tudo, inteligência, a primeira, essência e quantas coisas belas, depois da natureza primeira. E forma da alma em terceiro. E quanto a diferenças de almas, seguir os traços em suas impressões ou em sua natureza, em nada ridicularizando os homens divinos, mas com benevolência aceitando a palavra deles como mais antigos e tomando deles o que dizem bem, imortalidade da alma, cosmo inteligível, deus o primeiro, ser preciso a alma evitar a relação como o corpo, o afastamento dele, o fugir da geração para a essência; pois essas coisas que jazem em Platão340, claramente esses aí dizendo, bem fazem. Aos que querem estar em dissonância, restrição nenhuma há dos que falam, eles não ridicularizando e ultrajando os gregos, para fazer seus próprios conceitos em composição com os que ouvem, mas contendo-os de sua parte para demonstrá-los, quantos particularmente seus parecem dizer contra a opinião dos gregos, propondo com benevolência e sabedoria assuas próprias opiniões, às quais eles justamente se opõem, olhando para a verdade, não perseguindo a boa reputação pelo censurar homens que desde a antiguidade foram julgados como bons da parte de homens não de pouca qualidade, dizendo-se a si mesmos serem melhores do que aqueles. E depois o que está dito pelos antigos acerca dos inteligíveis muito melhor e instrutivo seja dito, e pelos que não se enganam o engano que se impõe aos homens será facilmente reconhecido; e por último o que foi tomado da parte dos antigos por esses, tomado como acréscimos, alguns nada convenientes, em que querem estar em oposição, introduzindo gerações e destruições completas, reprovando este todo e imputando à alma a relação comum com o corpo, censurando o que regula este todo, levando o que cria a algo igual à alma, dando lhe as mesmas impressões, que dão também às coisas em parte.
334 Crítica direta aos que aprenderam a dialética grega e oportunamente a usam para justificar suas posições.
335 Platão, Politeia 514a.
336 Como os três primeiros: παροικήσεις καὶ ἀντιτύπους καὶ μετανοίας, termos de difícil interpretação que parecem remeter a antigos textos gnósticos.
337 De Platão, Fédon 81d – 82a; 111b – 114b.
338 Platão, Timeu 39e7, com pequena variação: ᾗπερ οὖν νοῦς ἐνούσας ἰδέας τῷ ὃ ἔστιν ζῷον, οἷαί τε ἔνεισι καὶ ὅσαι, καθορᾷ, τοιαύτας καὶ τοσαύτας διενοήθη δεῖν καὶ τόδε σχεῖν (Então exatamente como inteligência contempla ideias que estão naquele que é vivente, quais e quantas são nele, pensou ser preciso este [todo] ter tais e tantas [ideias]).
339 As quatro hipóstases dos gnósticos referentes a esse ponto do Timeu: 1. O vivente corresponde à inteligência em repouso; 2. A inteligência contempla; 3. A inteligência discursiva é demiúrgica; 4. A alma é demiúrgica (apud Reale, 2002).
340 Platão, Fedro 246a; Politeia 517b; Teeteto 176b; Fédon 67b.
7. Então, que não terá fim nem cessará, mas é sempre também este cosmo, enquanto aquelas coisas existam, esteja dito. E sobre a relação comum da nossa alma com o corpo, antes deles esteja dito que não é o melhor para a alma; em relação ao que é da nossa alma e a do todo, tomar como semelhante, é como se alguém, ao tomar a categoria de artífices de vasos ou de bronze em uma cidade bem administrada, a reprovasse toda. É preciso tomar as diferenças, aquelas da alma do conjunto inteiro, como ela dirige, porque não é o mesmo modo, não estando ligada. Pois perante as outras diferenças, que inumeráveis estejam ditas em outros pontos, também isso é preciso considerar, que nós pelo corpo estamos amarrados, este já nascido como vínculo341 . Pois estando ligada na alma total, a natureza do corpo já liga o que ela encerrar; a mesma alma do todo não estaria ligada pelas coisas ligadas por ela; pois ela governa. Por isso ela é impassível perante essas coisas, e nós não somos senhores delas; e o quanto dela em relação ao divino, o acima, ileso permanece e não é impedido, tanto dela dá vida ao corpo, nada acrescenta da parte dele. Pois de modo geral a impressão de outro é por necessidade em si recebida, a qual sendo a mesma naquele não mais dá algo de si ao que tem vida própria; como se algo tivesse sido enxertado em outro, e suportando-o, nisso sofreu junto, e esse algo tendo-se secado, permitiu àquele outro ter a sua vida. E depois, nem se apagando o fogo em ti, o fogo inteiro se apaga; e depois, nem se o fogo todo se extinguisse, sofreria algo a alma, a de lá, mas a constituição do corpo sofreria, e se fosse possível através do que resta haver um cosmo, nada importaria à alma, à de lá. Logo, nem a constituição é de modo semelhante ao todo e a cada vivente; mas lá a alma como que corre, tendo ordenado que ele permanecesse, aqui é como o que foge para a posição dos próprios elementos, estando ligada a uma segunda prisão; lá não há para onde ela fuja342. Então, nem é preciso manter dentro, nem forçar que de fora ela se esprema para dentro, mas onde quis a natureza permanece desde sua origem. E se por acaso algum desses elementos se mova por natureza, pelos quais não é possível mover-se por natureza, eles suportam bem, como sendo do conjunto inteiro; e eles perecem, não sendo capazes de suportar a ordem do conjunto inteiro, como se, um grande coro sendo levado em ordem, no meio de seu trajeto tendo sido surpreendida uma tartaruga, ela seria pisada não sendo capaz de evitar a ordem do coro; se no entanto com aquela ordem ela ordenasse a si mesma, nada haveria por causa disso, nem ela sofreria
341 Platão, Fédon 66d.
342 Platão, Timeu 33c
8. O por que criou cosmo é igual a por que é a alma é também por que o demiurgo criou. Ao tomar um princípio343 como o que é antes do ‘sempre’; depois creem ter vindo a ser causador da criação mudando, tendo-se voltado de uma coisa a outra. Deve-se então instruí-los, se eles benevolentemente suportarem, qual é a natureza dessas coisas, de modo a deixarem de injúria às coisas honoráveis, que prontamente criam, em lugar de muita cautela vir convenientemente a ser. Logo, alguém não reprovaria corretamente a direção do cosmo, que antes demonstra a grandeza da natureza inteligível. Pois se assim passou ao viver, de modo a não ter vida não articulável – do tipo das menores dentre as que estão nele, que por muita vida que há nele são geradas de noite e cada dia344 – mas há vida contínua, evidente, múltipla e em toda parte que indica sabedoria impraticável, como alguém diria não ser isso representação [honorável] clara e bela dos deuses inteligíveis? E se o que era imitado não é aquele todo, isso mesmo é conforme a natureza; pois não havia ainda o que era imitado345. E o ter sido imitado de forma desigual é falso; pois nada foi deixado dentre o que era possível ter bela imagem natural. Portanto, era necessário que o resultado imitado fosse não desde reflexão e invenção; pois não era possível o inteligível ser último. Pois era preciso ser dupla a atividade dele, uma em si e outra para algo diverso. Então, era preciso haver algo além dele mesmo; pois havendo apenas ele, não mais é para o que é abaixo, que é o mais impotente de todos. Ali admirável potência corre; assim ela também foi trabalhada.
Portanto, se outro cosmo é melhor do que esse, qual é ele? E se há necessidade haver e não há outro, é esse o que salva o resultado imitado daquele. De fato, toda a terra é cheia de variados viventes, de imortais e até o céu tudo é pleno. E os astros, aqueles nas esferas abaixo e aqueles no mundo mais acima, em ordem sendo levados e percorrendo o cosmo, por que não serão deuses? Por que não terão virtude ou que impedimento há para aquisição de virtude para eles? Pois não há ali essas coisas que aqui criam os maus, nem a maldade do corpo, que é perturbada e perturba. E por que não compreendem sempre em quietude e [não] tomam em inteligência o deus e os outros deuses inteligíveis, mas a nossa sabedoria será melhor do que as coisas de lá? Quem sustentaria isso, não tendo ficado demente? E uma vez que as almas, se vieram, é porque foram forçadas pela alma do todo, como seriam melhores, tendo sido forçadas? Pois nas almas o que domina é melhor. E sendo voluntárias, o que censurais se viestes voluntários para o lugar, concedendo que elas também podem se liberar, se alguma não se agradar346? E se este todo é mesmo tal, de modo a ser possível ter sabedoria também em si, elas, mesmo estando aqui, a vida transcorrendo segundo aquelas coisas [inteligíveis], como não atestar que elas dependem das coisas dali?
343 Referência a Gênesis I 1: Ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ θεὸς τὸν οὐρανὸν καὶ τὴν γῆν. (No princípio criou deus o céu e a terra).
344 Platão, Timeu 37c; 92c.
346 Censura à concessão do suicídio, conforme Enéada I 9.
345 O que é imitado é o paradigma: Timeu 29a – b.
9. E quanto a riqueza e pobreza, se alguém censurar o não ser igual para todos em tais coisas, primeiro ignora que o diligente em tais coisas não busca o igual, nem considera que os que adquiriram muitas coisas têm algo mais, nem os poderosos, do que os particulares, mas deixa que outros tenham tal diligência, e aprendeu que dupla é a vida daqui, uma para os diligentes, outra para a maioria dos homens, para os diligentes [ela é] para o mais profundo e acima, e aos ‘mais humanos’, sendo ainda dupla [a vida], a que se lembrou da virtude participa de algum bem, e a massa ordinária, tal que artesão de algumas coisas para os mais moderados em relação à necessidade. E se alguém comete assassinato ou é vencido por prazeres por impotência, por que é admirável haver erros não para inteligência, mas para almas, como para crianças impúberes? E se houver um ginásio dos que vencem e dos que são vencidos, como também aqui [isso] não está bem? Se há injustiça, o que terrível há para o mortal? Se és assassinado, tens o que queres. E caso censures, não tens necessidade de ser cidadão. Concorda-se que há aqui tanto juízos quanto punições. Então, como está correto fazer censura à cidade que dá a cada um o seu mérito? Onde tanto virtude é honrada, quanto vício tem a conveniente desonra, e dos deuses não há apenas representações de culto, mas eles mesmos que olham de cima, que, dizem, facilmente afastarão as acusações da parte dos homens, conduzindo tudo em ordem do princípio ao fim, dando a cada um o conveniente destino, segundo as mudanças de vida, de modo consequente aos atos precedentes; o que ignora esse destino é mais propenso aos homens, sendo rude nos feitos divinos. Mas é necessário tentar vir a ser ótimo, e não apenas a si mesmo considerar ser capaz de vir a ser ótimo – pois assim ainda não será ótimo – mas considerar que outros homens são capazes de vir a ser ótimos, e que há ainda bons daímones, e muito mais que há deuses neste mundo e que ali olham, e acima de tudo que há o que conduz este todo347, beatíssima alma; e já daqui é necessário celebrar os deuses inteligíveis, e já sobre todos o grande rei ali, [deuses] que principalmente na multidão de deuses
347 Platão, Fedro 246e: μέγας ἡγεμὼν ... Ζεύς .
assinalam a grandeza dele348; pois não há o contrair em um só, mas mostrar o divino como múltiplo, quanto ele mesmo mostrou, isso é dos que conhecem a capacidade de deus, quando, permanecendo o que é, crie muitos, todos pendentes a si mesmo, porque são através daquele e da parte daquele349. E também este cosmo é através daquele e para lá olha, e todo e cada um dos deuses profetiza as coisas daquele aos homens, e vaticinam o que é caro àqueles [deuses]. E se não são isso que aquele é, isso mesmo está segundo a natureza. Mas se queres desprezar e veneras a ti mesmo como não pior, primeiro: quanto alguém é ótimo, está benevolamente para todos, mesmo para homens; depois: é preciso ser venerável na medida, não com rudeza, indo a tanto quanto nossa natureza é capaz, para retornar, e considerar haver espaço aos outros junto a deus, e que não apenas ele mesmo foi posto com aquele, como se em sonhos voasse, privando a si mesmo de quanto é possível à alma do homem vir a ser um deus350; e isso é possível em quanto a inteligência conduz; e o acima da inteligência já é cair fora da inteligência. E persuadem-se homens estultos com tais coisas, logo que dão ouvidos aos discursos como “tu serás melhor do que todos, não apenas dos homens, mas também dos deuses” – pois nos homens a presunção é muita – mesmo o homem há pouco mísero, modesto, privado, se ouvisse: “tu és filho de deus, e os outros que admiravas não são, nem aquilo que honram tendo tomado dos antepassados, tu és melhor até do que o céu, em nada tendo-te esforçado” – e depois outros também repercutem? Isso é tal que se, entre muitíssimos que não sabem contar, um que não sabe contar ouvisse que é de mil cúbitos, [e apenas fantasiasse que mil cúbitos é um número grande], o que seria se considerasse ser de mil cúbitos, e os outros de cinco cúbitos? [Ouviria que ele é? E apenas fantasiaria que mil cúbitos é um número grande351]. E depois, além disso ouve: “deus cuida de vós”, e do cosmo todo em que eles mesmos estão por que descuida? Pois se é porque não há tempo livre para ele olhar para si mesmo, não lhe é lícito olhar para baixo; e olhando para eles por que não olha para fora e olha para o cosmo em que estão? E se não olha para fora, para não ver o cosmo, não os olha. Mas em nada precisam dele; mas o cosmo precisa e sabe a sua ordem, e os que são nele [sabem] de que modo são nele e de que modo são ali [nos inteligíveis], e dentre os homens [sabem] aqueles que forem caros a deus, que serenamente suportam o que vem da parte do cosmo, se algo necessário lhes acontece desde o curso de todos os astros; pois não em relação ao desejo de cada um, mas é preciso olhar em relação ao todo; e honrando cada um segundo o mérito, esforçando-se sempre onde se esforça tudo que tem potência – por ser muitas todas as coisas que se esforçam para lá, umas por sorte sendo felizes, outras têm como é possível a moira conveniente a elas – não atribuindo somente a si o ser capaz; pois alguém não proclama ter por aqui o que ele diz ter, mas dizem ter muitas coisas os que sabem que não têm, e creem ter não tendo, únicos a ter o que apenas eles não têm.
348 Platão, Fedro 246e – 247a.
349 Princípio fundamental do politeísmo.
350 Platão, Teeteto 176b; Leis IV 716c – d.
351 Platão, Politeia 426d – e.
10. Então há muitas e outras coisas, ou seja, alguém examinando teria tudo em abundância para mostrar segundo cada discurso como são; pois há um certo respeito de nossa parte por alguns dos amigos, que se encontraram com essa doutrina antes de se tornar nossos amigos, não sei como permanecem nela. No entanto, eles não hesitam – desejando que suas posições pareçam ser verdades, de modo mais crível do que mesmo creem ser elas assim – em dizer o que dizem352; mas nós que falamos aos discípulos, não a esses – pois nada mais haveria para persuadi-los – que não se incomodem por eles não trazer demonstrações – pois como poderiam? – mas por eles ser presunçosos, dissemos essas coisas, havendo outro modo segundo que alguém escrevendo refutaria os que ousam denegrir as coisas belamente ditas e ao alcance da verdade dos antigos e divinos homens. No entanto, deve-se deixar de examinar desse modo; pois aos que tomaram isso com exatidão será o que foi dito agora, e acerca das outras coisas todas é para saber como estão; em relação àquele discurso que foi dito, deve-se deixar o que realmente superou tudo em extravagância, se é preciso dizer isso como extravagância. Pois tendo eles dito que a alma e uma certa ‘sofia’ inclinam para baixo, seja que a alma tenha começado, seja essa tal causa que veio a ser ‘sofia’, seja que querem que ambas sejam a mesma coisa, dizendo que as outras almas desceram juntas e que são membros da ‘sofia’, dizem que elas mergulham nos corpos, tal que os de homens; e graças à qual [sofia] também elas mesmas desceram, dizem ainda que aquela [sofia] não é por descer, tal como não é por anuir, mas por ter brilhado apenas na escuridão, depois veio a ser de lá um ídolo na matéria353. Depois eles tendo plasmado ídolo de ídolo em algum lugar daqui pela matéria ou materialidade ou o que quer que queiram nomear, dizendo ora uma coisa ora outra, e tendo dito muitos outros nomes do que dizem para obscuridade, geram por si o dito demiurgo, separado da mãe, tendo eles criado o cosmo por ele, arrastam-no354 às extremidades dos ídolos355, para que seja muito ultrajado o que escreveu isso.
352 Porfírio, Vida de Plotino 16.
353 Vide Irineu, Contra as heresias I 2, 2-4.
354 ἕλκουσιν] em outras lições: ἄγουσιν / λέγουσιν.
355 Vide Irineu, Contra as heresias I 5, 2-3
11. Primeiro, se a alma não desceu, mas iluminou a escuridão, como corretamente seria dito ter ela anuído? Pois se algo da parte dela fluir tal que luz, já não seria conveniente dizer ter ela anuído; se de nenhum modo a obscuridade jazia em algum lugar abaixo, ela veio de forma localizada à obscuridade e, tendo-se-lhe tornado próxima, a iluminou. E se, ao permanecer em si mesma356, iluminou, nada tendo feito para isso, por que somente ela iluminou, mas não as coisas mais potentes do que ela nas coisas que são? E se ao tomar para si o produto do cálculo do cosmo não foi capaz de iluminar desde esse produto, por que não iluminou conjuntamente e criou também o cosmo, mas esperou a geração dos ídolos? E depois o produto do cálculo do cosmo, a terra dita por eles estrangeira que veio a ser pelos superiores, como eles dizem, não conduziu abaixo à inclinação os que a criaram. Depois como a matéria, tendo sido iluminada, cria ídolos de alma, mas não natureza de corpos? Nenhum ídolo de alma precisaria de obscuridade ou de matéria, mas tendo vindo a ser, se vem a ser, acompanharia o que a criou e seria conjunta a ele. Depois, ou isso é essência ou, como dizem, é conceito? E se é essência, qual a diferença em relação a aquilo a partir de que é? Se for outra forma de alma, se aquela é lógica, logo essa seria vegetativa e generativa; e se é isso, como ainda cria para que fosse honrada, e como, por arrogância e audácia? E o criar por fantasia e ainda mais por cálculo está inteiramente anulado. E por que ainda era preciso o que a criou infundar nela desde matéria e de ídolo? Se é conceito, primeiro deve-se assinalar de onde é o nome; depois como é, se ao conceito não dará o criar? Mas além do que é plasmado, como é a criação? Esse aqui primeiro, outro depois daquele, mas dizendo assim por possibilidade. E por que primeiro o fogo?
356 De acordo com a doutrina dos gnósticos.
12. E tendo vindo a ser há pouco, como empreende? Pela lembrança do que viu. Mas inteiramente não havia, para que também visse, nem ele mesmo nem a mãe que lhe dão357. Depois, como não é admirável que eles tenham vindo aqui a este cosmo não como ídolos de almas, mas
como verdadeiras almas358, e uma ou duas delas, a custo e com dificuldade, por mover-se do cosmo e tendo chegado à anamnese, tomaram a custo a repetição das coisas que então viram, e viram esse ídolo, mesmo de forma indistinta, como dizem, mas então, não é admirável, ele tendo vindo a ser há pouco, que essas coisas tenham sido pensadas ou mesmo a mãe dele, ídolo de matéria, e não apenas essas coisas tenham sido pensadas, para tomar daquele cosmo um conceito, mas também aprender de que coisas ele viria a ser? De onde então criar primeiro fogo? Porque se considerou ser preciso ser esse primeiro? Por que não outro? Mas se era possível criar fogo, tendo pensado, por que, tendo pensado o cosmo – pois primeiro era preciso ter pensado o inteiro – não criava em conjunto o cosmo? Pois também isso estava envolvido no ato de pensar. Pois totalmente mais natural o criava, mas não como as artes criam; pois as artes são posteriores à natureza e ao cosmo. Depois, mesmo agora, as coisas que por parte vêm a ser pelos elementos naturais, não é primeiro o fogo, depois cada elemento, depois um emplastro deles, mas amplitude e circunscrição que se impõem aos indicadores de todo vivente. Por que, então, mesmo ali a matéria não se circunscrevia à marca do cosmo, na marca em que terra, fogo e os outros elementos [estariam circunscritos]? Mas talvez eles criaram o cosmo assim como servindo-se de uma alma mais verdadeira, mas aquele [demiurgo] ignorava criar desse modo. No entanto, prever a grandeza do céu, ou melhor, prever que era tamanha, a trajetória obliqua das figuras do zodíaco e a trajetória dos astros abaixo dele e a terra, de modo a dizer as causas pelas quais está assim, [isso] não era de um ídolo, mas é totalmente da potência que vem da parte dos ótimos; com o que mesmo eles, involuntários, concordam. Pois a iluminação, aquela para a escuridão, que foi examinada, criará um ‘concordar’ para as verdadeiras causas do cosmo. Pois, por que era preciso iluminar, se não fosse totalmente preciso? Pois há uma necessidade ou segundo a natureza ou contra a natureza. Mas se é segundo a natureza, será sempre assim; se é contra a natureza, também nos de lá haverá o ‘contra a natureza’, e os males serão antes deste cosmo, e o cosmo não será causador dos males, mas lá naquele mundo haverá males, e na alma, não daqui, mas da parte daquela de lá; e chegará a razão reportando o cosmo aos primórdios. E se é assim, também a matéria dali apareceria. Pois a alma que se inclinou, já havendo a escuridão, dizem [os gnósticos], viu e iluminou. De onde, então, é essa escuridão? Se disserem que ela ao se inclinar criou, não havia, é claro, lugar em que se inclinou, nem a própria escuridão é causadora da inclinação, mas a própria natureza da alma. E isso é o mesmo para as precedentes necessidades; assim é a causa para os primórdios.
357 Vide Irineu, Contra as heresias I 7, 1.
358 Pela doutrina dos gnósticos, somente suas almas são verdadeiras, e não meros ídolos.
13. Portanto, o que faz censura à natureza do cosmo não sabe o que faz, nem por onde corre essa sua audácia. E isso é porque não sabem a posição em sequência dos primeiros, dos segundos e terceiros359, até os últimos, e que não se deve fazer injúria aos piores dentre os primeiros, mas que se deve conceder serenamente à natureza de todas as coisas, correndo aos primórdios, cessando a tragédia das coisas terríveis, como creem, nas esferas do cosmo, que na verdade “toda doçura lhes suscitam”360. Pois que de terrível têm elas, que causam terror nos inexpertos de razões e surdos à melodiosa gnose que foi ensinada? Pois, se de fogo são seus corpos, não é preciso temer, porque estão simetricamente em relação ao todo e à terra, mas [é preciso] olhar para suas almas, pelas quais eles certamente consideram-se dignos de ser honoráveis. No entanto, mesmo os corpos deles diferindo em grandeza e beleza, cooperam colaborando com o que vem a ser por natureza, que não viria a ser enquanto não houver os elementos primordiais, complementando o todo e sendo grandes partes do todo. E se homens, ao contrário de outros viventes, são algo honorável, muito mais são esses corpos, que não são nesse todo por uma tirania, mas que apresentam decoro e ordem361; e o que se diz vir a ser da parte deles, considerar ser sinais das coisas que hão de vir, para que as diferenças que vêm a ser vir a ser por sortilégios – pois não era possível acontecer as mesmas coisas para cada um – por circunstâncias de gênese, por lugares que estão muito afastados e por disposições de almas. E não se deve pedir que novamente todos sejam bons, nem, porque isso não seria possível, fazer censuras novamente aos que avaliam que essas coisas daqui em nada diferem daquelas de lá, e não considerar ser o mal outra coisa que ser mais insuficiente para ser inteligente, um bem inferior e sempre para algo menor; tal que se alguém disser ser a natureza um mal, porque não é sensação, e que o sensível é um mal, porque não é razão. Senão, serão forçados a dizer que há males também ali; pois ali alma é pior do que inteligência, e essa é inferior ao outro
359 Platão, Carta II 312e.
360 Píndaro, Olímpicas I 30.
361 Visão cosmocentrista em oposição à visão antropocentrista dos gnósticos.
14. E sobretudo esses [gnósticos] fazem de modo diverso impuros os seres de lá; pois quando escrevem encantamentos, como se falassem àqueles seres, não apenas para alma, mas também para os seres acima, o que fazem senão magias e dizem seduções e persuasões, para que eles deem ouvidos e se conduzam pelo discurso, caso algum de nós mais hábil no dizer estas fórmulas, como aqui melodias, ecos, exalações, sibilos da voz e outras coisas quantas estão escritas para enfeitiçar os seres dali362. Caso não queiram dizer isso, como os incorpóreos são com vozes? Assim eles fazem parecer mais veneráveis seus discursos: eles com isso, sem se dar conta, afastaram o venerável daqueles seres. E ao dizer que se purificam de doenças, dizendo que seria por moderação e decorosa dieta, diriam corretamente, conforme dizem os filósofos; e agora, ao sustentar que as doenças são demônios e ao dizer que são capazes de expulsá-los por uma palavra, e ao anunciar isso pareceriam ser mais veneráveis junto aos muitos, que admiram capacidades junto aos magos, contudo não persuadiriam os que são bem sensatos de que as doenças não têm as causas ou por fadigas ou por excessos ou por insuficiências ou por infecções e em geral por mudanças que tomam o princípio ou de fora ou de dentro. E os cuidados delas também o mostram. Pois purgando-se ou aplicando-se um remédio, corre abaixo a causa da doença, depurando-se o sangue, e mesmo a insuficiência se cura. Certamente o demônio tendo sentido fome e tendo sentido fazerse consumir pelo remédio, ou saiu em seguida, ou permanece dentro? Mas se ainda permanece, como, estando dentro, não mais está doente [o corpo]? E se saiu, por quê? Pois o que ele sofreu? Certamente, porque era nutrido pela doença. Portanto, era a doença que era uma coisa diferente do demônio363. Depois, se ele se insinua sem motivo algum, por que não está sempre doente o corpo? E caso tendo vindo a ser um motivo, por que é preciso o motivo ser o demônio364 para adoecer? Pois o motivo é suficiente para produzir a febre. Ridículo é vir a ser o motivo e o ‘ao mesmo tempo’, e logo o demônio, que é assim pronto para estar junto ao motivo365. Mas de que modo e graças a que essas coisas são ditas por eles, é claro; e é por causa disso não menos que fomos lembrados desses demônios. As outras coisas deixo a vós leitores, para examinar e vigiar aquilo em toda parte, porque de nossa parte a forma de filosofia, que segue para além de todos os outros bens, indica a simplicidade de costume com puro modo de pensar, que segue de perto o venerável, não o presunçoso, que tem o corajoso com razão, muita segurança, cautela e muitíssima circunspecção; e comparar as outras coisas com algo do tipo. O que é da parte dos outros está preparado muitíssimo em contrário em tudo; nada mais diria; pois assim, falar deles, seria conveniente a nós.
362 Vide Irineu, Contra as heresias I 24, 5. 363 Embora o texto apresente τοῦ δαίμονος ‘do dâimon’. 364 Idem: τοῦ δαίμονος por τοῦ δαιμονίου. 365 O critério de causa e efeito seguido por Plotino é prova de sua visão hipocrática para diagnosticar doenças.
15. Aquilo sobretudo é preciso que não esqueçamos, o que então esses discursos criam nas almas dos ouvintes, do cosmo e dos que nele foram persuadidos a desprezar. Pois, havendo duas escolhas de alcançar o fim, uma que põe o prazer como fim do corpo, outra a que escolhe o belo e a virtude, pelos quais o desejo está em dependência, tanto de deus quanto para deus366, assim em outros deve-se observar: Epicuro367 , tendo anulado a providência, exorta a perseguir isto: o prazer e o ter prazer, que era o que restava; essa doutrina ao censurar de forma ainda mais juvenil o principal da providência e a própria providência e ao desonrar todas as leis daqui, tendo posto em ridículo a virtude que foi descoberta desde todo o tempo e esse ‘ser moderado’, para que nada que aqui está para o belo fosse visto, anulou o ser ‘moderado’ e o inato sentimento de justiça que é nos costumes, que é perfeito desde razão, exercício e de modo geral segundo o que um homem viria a ser diligente. De modo que a esses resta o prazer, o que é acerca de si mesmos e que não é comum aos outros homens, o que apenas é de
utilidade, caso nenhum por sua própria natureza seja melhor do que esses discursos; pois nada disso é belo para esses [gnósticos], mas alguma outra coisa que então perseguirão. No entanto, era preciso que os que já são conhecedores daqui sigam, seguindo primeiro corrigindo os que alcançam essas coisas desde a natureza divina; pois é daquela natureza que despreza o prazer do corpo dar ouvidos ao belo. Aos que é ‘não participa de virtude’, não seriam os que absolutamente se movem para aquelas coisas divinas. Prova para esses também é isto: nenhum discurso sobre a virtude ter sido feito, restando desprezado sobretudo o discurso sobre essas coisas, sem dizer o que são, nem dizer tão grandes nem quantas estão consideradas, muitas e belas pelas palavras dos antigos, nem desde que coisas divinas [a virtude] será revestida e adquirida, nem como se cura a alma nem como ela se purifica. Pois não realiza algo de útil o dizer “Olha para deus”, se não se ensinar como se deva olhar. Pois o que impede, diria alguém, olhar e não estar longe de nenhum prazer, ou ser intemperante de ânimo estando lembrado do nome de deus, estando junto de todas as paixões, nenhuma delas tentando excluir? De fato, a virtude, ao projetar-se para um fim, tendo vindo a ser na alma com moderação, indica deus; sem virtude real, deus sendo dito é nome
366 Vide Irineu, Contra as heresias I 6, 3-4. Os gnósticos, considerando-se eleitos, não seguiam ética alguma para a vida, podendo entregar-se a todos os tipos de prazeres.
367 Carta a Meneceu 128, 11.
16. E por sua vez não é bom acontecer o desprezar cosmo e deuses que são nele e as outras coisas belas. Pois todo homem, tendo desprezado os deuses, seria mau, mesmo antes que [os gnósticos] desprezassem os deuses, ainda que não o fosse anteriormente, caso em relação às outras coisas não em todas fosse mau, para esse mesmo haveria de acontecer [ser mau]368. Pois mesmo a honra que é dita por eles em relação aos deuses inteligíveis viria a ser incompatível; pois o amar que está para qualquer que seja tanto se compraz de todo congênere daquele que ama quanto tem afeto pelos filhos cujo pai ama; e toda alma é filha daquele pai. E as almas nesses astros são tanto inteligentes quanto boas e estão muito mais em contato com os seres de lá do que as nossas. Pois como seria, tendo-se cindido este cosmo daquele? Como seriam os deuses nesse? Mas isso está dito anteriormente369; e agora, ao desprezar os congêneres àqueles seres, não os conhecem, senão por discurso; daí, a providência não chegar até as coisas daqui ou até o que quer que seja, como isso é pio? Como isso seria consoante com eles mesmos? Pois dizem que ela se preocupa apenas por eles. Qual dos dois: eles tendo vindo a ser ali, ou mesmo aqui estando? Pois se for ali, como vieram? E se for aqui, como ainda são aqui? E como também ele mesmo [deus] não é aqui? Pois de onde saberá que eles estão aqui? E como saberá que, aqui eles estando, não se esqueceram dele e vieram a ser maus? E se ele conhece os que não vieram a ser maus, conhece também os que vieram a ser, para que possa diferenciar aqueles destes. Em tudo, então, estará presente e será neste cosmo, qualquer que seja o modo; como também participará dele o cosmo. E se é ausente do cosmo, também será ausente de vós, e não tereis o que dizer sobre o cosmo nem sobre as coisas além dele. Mas a vós ou alguma providência ou o que desejaste chega de lá, mas o que o cosmo tem de lá nem está abandonado nem será abandonado. Pois é muito mais dos inteiros do que das partes é a providência, e a participação também daquela alma é muito maior; e mostra-o o ser e o ser de modo sensato. Pois quem é assim ordenado ou sensato, como é o todo, dentre os arrogantes insensatos? Certamente comparar é tanto ridículo quanto muito absurdo, e o que compara o que não é por causa da razão viria a ser não fora de praticar impiedade; nem o buscar acerca disso é do sensato, mas de um cego que absolutamente não tem sensação nem inteligência, porque é longe de ver o cosmo inteligível, que não vê esse. Pois que músico seria um homem que, ao ver a harmonia no inteligível, não se comoveria, ao ouvi-la em sensíveis sons? Ou que prático de geometria e de números seria um homem que não se comovesse ao ver através dos olhos o que está simétrico e proporcionalmente ordenado? Mesmo que os que através dos olhos veem as obras de arte não vejam de modo semelhante as mesmas coisas nem nas artes gráficas, mas, ao reconhecer que são imitações no mundo sensível do que jaz na mente, tal que se perturbam e chegam à anamnese do verdadeiro370; desde cuja impressão movem-se os amores. Mas o que vê uma beleza em aspecto estando bem imitada é levado para lá371, mas haverá alguém assim rude de conhecimento que se moverá a nada mais, vendo assim todo o conjunto de belezas no mundo sensível, toda simetria e essa grande disciplina, a forma que se manifesta nos astros, mesmo sendo distantes, e daí não considera, um temor religioso o toma, que tais coisas são a partir de quais daquelas? Portanto, nem compreendeu essas coisas nem viu aquelas.
368 Seguindo o pensamento grego, Plotino considera mau o homem que despreza a expressão do belo no mundo sensível; o belo está estruturalmente ligado ao bem supremo e ontologicamente ligado à perfeição.
369 Enéada II 9, 3.
370 Platão, Fedro 249c – 250a.
371 Platão, Fedro 251a.
17. No entanto, se lhes sobrevier odiar mesmo a natureza do corpo, porque ouviram Platão censurando muitas coisas no corpo, tais que apresentam impedimento à alma – disse também que toda natureza corpórea é inferior372 – era preciso que eles a abrissem pelo raciocínio para ver o restante: esfera inteligível que envolve a forma no cosmo, almas em ordem, sem os corpos, que dão grandeza segundo o inteligível e que conduzem à disposição, de modo que a grandeza do paradigma se iguale em potência à grandeza que veio a ser, que é indivisível; pois ali o grande em potência, aqui é em massa373. E se quiserem pensar essa esfera como sendo conduzida pela potência de um deus que tem dela toda princípio, meio e fim374, ou como estando em repouso, de modo que nada mais seria dela, que governa, bem estariam para um conceito da alma que governa este todo. E eles tendo já posto o corpo nela375, ela nada sofrendo, e dando a um segundo, porque não é lícito haver inveja entre os deuses376, de modo que o contenha, se cada coisa puder tomar algo [do corpo], de modo que eles reflitam sobre o cosmo, dando tanto de potência à alma quanto fizeram com a natureza do corpo, que não é bela, tanto era para ela fazer-se bela, por participar de beleza; e é isso que move as almas, porque são divinas. Portanto, se eles disserem não se comover, não será de modo diferente ver corpos feios e belos; mas assim nem será de modo diferente ocupações feias e belas nem belas disciplinas nem teorias, de fato377; nem haveria deus, de fato; pois pelos princípios também são essas coisas [daqui]. Então, se não houver essas, nem aquelas; depois daquelas, de fato, essas serão belas. Mas quando dizem desprezar a beleza daqui, bem fariam se a desprezassem em crianças e mulheres, de modo a não ser inferiores em falta de moderação; mas é preciso saber que não seriam honrados se desprezassem o feio, mas que desprezam o que anteriormente diziam belo; mas como é, quando os dispõem? Depois, é preciso saber que beleza não é a mesma coisa em parte e no inteiro, em todos e no todo378; depois, é preciso saber que há tal beleza tanto nos sensíveis quanto nos em parte, tal que a dos dâimones, de modo a admirar o que a criou e acreditar que são dali, e em consequência dizer que a beleza ali é extraordinária379, que não está nessas coisas [daqui], mas que vai dessas para aquelas [de lá], não fazendo censura a essas [daqui]; e dizer, se há mesmo as belezas interiores, que elas são consoantes entre si; e se forem fracas, dizer que se tornaram inferiores nas melhores partes. Nem alguma vez é possível algo que realmente é belo de fora ser feio de dentro; pois todo o belo de fora é daquilo que domina de dentro380. E os que se dizem belos são de dentro feios e têm uma beleza que é engano de fora. E se alguém disser ter visto os que são realmente belos, sendo feios de dentro, creio que ele não viu, mas considerou ser outros os belos; então, se for assim, o feio para eles é algo acrescentável aos que são belos de natureza; pois aqui muitos são os impedimentos para chegar ao fim. E ao todo que é belo que empecilho havia para ser belo também de dentro? Contudo, a esses, que a natureza não concedeu de princípio o fim, logo aconteceria não chegar ao fim, de modo a acontecer também aos fracos aceitar [não chegar ao fim], e ao [universo] todo, que jamais era criança de modo a ser incompleto, não lhe sobreveio algo que era em seu favor, sendo-lhe acrescentado ao corpo. Pois de onde viria? Pois tinha tudo. Mas ninguém inventaria algo para alma. E mesmo se alguém com esse [acréscimo] agradasse a eles, mas não seria algo mau.
372 Platão, Fédon 65a.
373 Oposição da grandeza inteligível, metafísica, à sensível, física.
374 Platão, Leis 715e.
375 Platão, Timeu 36d.
376Platão, Fedro 247a; Timeu 29e. Píndaro, Píticas VIII 71-72. Aristóteles, Metafísica I 2, 982b 32 – 983a4.
377 Platão, Simpósio 210a.
378 Em todos, particularmente, ou seja, em cada indivíduo, e no todo, ou seja, em geral.
379 Platão, Politeia 509a; Simpósio 218e: ἀμήχανον τὸ ἐκεῖ κάλλος.
380 Platão, Fedro 279b – c.
18. Mas talvez dirão que aqueles discursos fazem evitar o corpo porque o odeiam de longe, e que os nossos mantém a alma perante ele. E seria semelhante isso, como se dois habitassem a mesma bela habitação, um censurando a estrutura e o que a criou, mas permanecendo não menos nela, mas o outro, dizendo que o que a criou a criou muitíssimo artisticamente, esperando até que chegue o tempo em que se afastará, quando não mais precisasse de habitação; o que se achasse ser mais sábio seria também mais pronto para sair, porque sabe dizer que as paredes dela são compostas de pedras inanimadas e de madeira, e que é preciso muito para a verdadeira habitação, e ignorando, por não portar as coisas necessárias, difere, se é que não se faz de descontente amando em segredo o belo das pedras. É preciso, mantendo o corpo, permanecer nas habitações que foram preparadas pela alma, boa irmã, que tem muita capacidade para criar sem fadiga. Por acaso, acham digno se dirigir aos mais insignificantes como irmãos, e desdenham de dizer irmãos o sol, os astros no céu e a alma do cosmo, ‘com boca delirante’381? Portanto, os que são fracos não é lícito se coligar em parentesco [a estes], mas tendo-se tornado bons, não sendo corpos, mas almas em corpos, devem ser capazes de assim habitar neles, de modo a ser muitíssimo próximo da habitação da alma do todo, no corpo inteiro. Isto é não repercutir nem dar ouvidos aos que de fora incidem nos prazeres ou nas coisas vistas, nem ficar perturbado, se houver algo duro. De fato, aquela alma não se abate, pois não tem pelo quê; e nós, mesmo sendo daqui, poderíamos com virtude já afastar os golpes, uns que vieram a ser fracos, por grandeza de conhecimento, e outros que nem atingiram, por vigor [de ânimo]. E tendo-nos aproximado do inatingível, imitaríamos a alma do todo em conjunto e a dos astros, e tendo chegado muitíssimo próximos de semelhança poderíamos nos esforçar para o mesmo, e também os astros382 em contemplação [do mesmo], enquanto nossas naturezas e cuidados estiverem bemdispostas a eles; o mesmo está para eles desde o princípio. E mesmo se disserem que apenas [os astros] são capazes de contemplar, esse contemplar não viria a ser “mais” para eles, porque dizem que “sair [para eles]” não é aos que morreram, e que não há [sair] para os astros, que ornam sempre o céu; pois diriam o que é isso por inexperiência do que é “de fora” e do modo como a alma do todo cuida, inteira, do que é inanimado383. É possível, então, não ser amante do corpo384 e vir a ser com os puros, desprezar a morte, conhecer as melhores coisas e persegui-las, e não ter inveja aos outros que são capazes de persegui-las e perseguem sempre, [dizendo] que não perseguem, e nem sofrer o mesmo que os que acham que os astros não correm, porque a sensação lhes diz que os astros estão em repouso. Pois, por isso os mesmos [gnósticos] não acham que a natureza dos astros olhe para as coisas de fora, porque não veem que a alma deles é de fora.
381 Heráclito 28 B 92 Diels-Kranz, em referência à fala da Sibila.
382 Platão, Timeu 38d: os astros de movimentos oblíquos são postos no círculo do mesmo, que os envolve em perfeição de um só movimento circular e no mesmo lugar.
383 Platão, Fedro 246b. 384 Platão, Fédon 68c.
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